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Alzheimer: muito mais do que perda de memória

  • 12 de jun.
  • 4 min de leitura

Quando se fala em Doença de Alzheimer, a maioria das pessoas associa-a imediatamente à perda de memória. Embora esta seja uma das manifestações mais conhecidas da doença, a realidade é que o Alzheimer vai muito além dos esquecimentos. Trata-se de uma condição neurodegenerativa complexa que afeta progressivamente a forma como a pessoa pensa, sente, comunica e se relaciona com o mundo à sua volta.


Com o aumento da esperança média de vida, o número de pessoas diagnosticadas com demência tem vindo a crescer, tornando esta uma das principais preocupações de saúde pública da atualidade. Contudo, para além das alterações cognitivas, é fundamental compreender o impacto emocional e psicológico que acompanha a doença, tanto para a pessoa diagnosticada como para os seus familiares.


O impacto emocional do diagnóstico

Receber um diagnóstico de Alzheimer pode desencadear um conjunto de emoções intensas. Medo, tristeza, ansiedade, revolta e incerteza são reações frequentes nas fases iniciais, sobretudo quando a pessoa mantém consciência das dificuldades que começa a experienciar.


Muitas pessoas descrevem sentimentos de perda de controlo sobre a própria vida e preocupação relativamente ao futuro. Questões relacionadas com a autonomia, a capacidade de tomar decisões e a possibilidade de se tornarem dependentes dos outros podem gerar sofrimento psicológico significativo.


Por este motivo, o acompanhamento emocional desde as fases iniciais assume um papel fundamental na adaptação à doença e na promoção do bem-estar psicológico.


Quando a memória não é o único desafio

Embora os problemas de memória sejam frequentemente os primeiros sinais a despertar preocupação, a doença pode afetar diversas áreas do funcionamento psicológico.


Alterações do humor, irritabilidade, ansiedade, apatia, retraimento social e diminuição do interesse por atividades anteriormente prazerosas são manifestações relativamente comuns. Em alguns casos, podem surgir sintomas depressivos, sentimentos de frustração ou dificuldades na gestão emocional perante as limitações impostas pela doença.


Estas alterações não devem ser encaradas apenas como uma consequência inevitável do envelhecimento, mas sim como sinais que merecem atenção e acompanhamento especializado.


Preservar a identidade e a dignidade da pessoa

"Who am I?"
"Who am I?"

À medida que a doença progride, existe o risco de a pessoa passar a ser definida apenas pelo diagnóstico. No entanto, é essencial recordar que continua a existir uma história de vida, valores, preferências, relações e experiências que fazem parte da sua identidade.


As abordagens centradas na pessoa defendem que os cuidados devem respeitar a individualidade e promover a participação ativa sempre que possível. Pequenos gestos, como envolver a pessoa nas decisões do dia a dia, respeitar as suas preferências e valorizar as suas capacidades preservadas, podem contribuir para reforçar a auto-estima e o sentimento de dignidade.


Mais do que focar apenas as perdas, é importante reconhecer e estimular aquilo que a pessoa continua a conseguir fazer.


O impacto invisível nos familiares

A Doença de Alzheimer não afeta apenas quem recebe o diagnóstico. Os familiares e cuidadores enfrentam frequentemente um processo emocional exigente, marcado por mudanças progressivas na dinâmica familiar.


É comum surgirem sentimentos de sobrecarga, preocupação constante, culpa, tristeza e exaustão física e emocional. Muitos cuidadores assumem responsabilidades crescentes ao longo do tempo, conciliando os cuidados prestados com a vida profissional, familiar e pessoal.


A literatura científica demonstra que os cuidadores de pessoas com demência apresentam maior risco de desenvolver sintomas de ansiedade, depressão e burnout. Por isso, cuidar do cuidador é uma necessidade e não um luxo.


O papel da Psicologia na intervenção

A intervenção psicológica pode desempenhar um papel relevante em diferentes fases da doença. O seu objetivo não passa apenas pelo tratamento de sintomas emocionais, mas também pela promoção da adaptação, da qualidade de vida e do suporte às famílias.


Entre as estratégias frequentemente utilizadas encontram-se:

  • Psicoeducação sobre a doença e a sua evolução;

  • Apoio emocional à pessoa diagnosticada;

  • Intervenção na ansiedade e nos sintomas depressivos;

  • Promoção de estratégias de adaptação e coping;

  • Terapia de reminiscência, através da evocação de memórias significativas;

  • Apoio psicológico aos familiares e cuidadores;

  • Desenvolvimento de competências para lidar com alterações comportamentais.


A evidência científica sugere que estas intervenções podem contribuir para reduzir o sofrimento psicológico, melhorar o bem-estar emocional e fortalecer os recursos de adaptação da pessoa e da família.


Viver com qualidade apesar do diagnóstico


Embora atualmente não exista uma cura para a Doença de Alzheimer, existem múltiplas formas de promover qualidade de vida ao longo do percurso da doença.


A manutenção de rotinas estruturadas, a prática de atividade física adaptada, a estimulação cognitiva, o envolvimento social e o acesso a apoio especializado são fatores que podem contribuir para preservar a funcionalidade e o bem-estar durante mais tempo.


Cada pessoa vive a doença de forma única. Por isso, uma abordagem integrada e multidisciplinar, que considere as necessidades cognitivas, emocionais, físicas e sociais, é essencial para garantir um acompanhamento verdadeiramente centrado na pessoa.


O Alzheimer é muito mais do que perda de memória. É uma condição que desafia a identidade, as relações e a adaptação emocional de quem a vive e de quem cuida. Com informação adequada, apoio especializado e uma intervenção humanizada, é possível promover maior dignidade, bem-estar e qualidade de vida em todas as fases da doença.


 
 
 

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